CAPOEIRA,
EDUCAÇÃO E A DIALÉTICA DE HEGEL: TRADIÇÃO
OU CONTRADIÇÃO NOS ESPAÇOS DO CONHECIMENTO?
Paulo Gonçalves Moreira
Júnior
RESUMO
Essa
produção fomenta uma reflexão sobre os impactos da inserção da
capoeira no processo educativo institucional, e suas possíveis
consequências para o século XXI.
É
o início de uma reflexão relevante, pois decifrará uma “fusão”
complexa entre a capoeira, as universidades, as unidades educacionais
e outros espaços do conhecimento a partir de princípios
articulares.
O
que será que está se trabalhando, se explorando, se pesquisando com
os alunos e participantes neste processo educacional?
Quais
às consequências poderão trazer para esta geração, se ficarem
constatados equívocos e contradições nesse contexto?
A
interferência da capoeira nos espaços do conhecimento, com suas
tradições e possíveis contradições, será o objeto a ser
contextualizado.
Palavras-chave:
Educação. Capoeira. Cultura. Educação Física.
ABSTRACT
This
production promotes a reflection on the impact of inclusion of
poultry in institutional educational process and its possible
consequences for the XXI century.
It
is the beginning of a reflection relevant because decipher a "fusion"
between the poultry complex, universities, educational facilities and
other areas of knowledge from joint principles.
I
wonder what is working, is exploring if researching with students and
participants in the educational process?
What
the consequences may bring to this generation, if they become noted
misconceptions and contradictions in this context?
Interference
of poultry in areas of knowledge, with its traditions and possible
contradictions, will be the object to be contextualized.
Keywords:
Education. Capoeira. Culture. Physical Education.
2013
CAPOEIRA,
EDUCAÇÃO E A DIALÉTICA DE HEGEL: TRADIÇÃO
OU CONTRADIÇÃO NOS ESPAÇOS DO CONHECIMENTO?
Paulo Gonçalves Moreira
Júnior
Mestrando
em Educação – Universidad del Salvador, Especialista em Esporte
Escolar – UnB, Licenciado em Educação Física – UFBA.
paulopalmares@ig.com.br;
rede.palmares@outlook.com
INTRODUÇÃO A CAPOEIRA
O vocábulo capoeira foi
registrado pela primeira vez em 1712, por Raphael Bluteau
(vocabulário português e Latino, Coimbra. No colégio das Artes da
Companhia de Jesus, vol. II, pág. 129), seguido por Moraes em 1813,
na segunda e última edição que deu em vida de sua obra (Antônio
de Moraes Silva, Diccionário da Língua Portugueza. Lisboa,
Typografia Lacerdina, tomo primeiro pág, 343). No ano de 1865, na
primeira edição de Iracema, José de Alencar realiza a primeira
proposição deste termo, repetindo, em 1870, em O Gaúcho. Rêgo,
Waldeloir (1968).
Não
se pode provar cientificamente a origem da capoeira, quem a criou,
nem a data precisa, pois não existe documentos nem registros sobre
essa temática. Provavelmente a capoeira nasce da fusão das três
etnias que constituíram a população brasileira, devido a
comprovação de alguns fatos históricos, sendo a contribuição da
etnia negra, a mais significativa. Como nos revela Rêgo, W. (1969)
No
caso da capoeira, tudo leva a crer seja uma invenção dos africanos
no Brasil, desenvolvida por seus descendentes afro-brasileiros, tendo
em vista uma série de fatores colhidos em documentos e sobretudo no
convívio e diálogo constante com os capoeiristas atuais e antigos,
que ainda vivem na Bahia, embora em sua maioria, não pratique mais a
capoeira, devido à idade já avançada.
Em
menor proporção houve a influência da etnia indígena, entre os
exemplos documentados existe um muito expressivo, que é o da
etimologia (estudo, significado e origem) da nomenclatura capoeira.
A língua indígena tupi-guarani
definiu a capoeira como mato rasteiro, também gaiola que criava-se
capões. Existem alguns significados registrados nos seguintes
dicionários:
- Melhoramentos (tupi caá-puêra) mato ralo de pequeno porte, que nasceu da derrubada das mata virgens. 2. jogo atlético de ataque e defesa.
- Caldas Aulete (tupi-guarani) (…) jogo atlético. Outras palavras na língua tupi são: Caá-paun mata isolada. Caapora entre os índios, homem do mato.
- Michaelis Moderno (tupi Kopuéra, o que já foi roça) jogo atlético tradicional no Brasil...
Em seguida a influência da etnia
branca, entre os exemplos destaca-se a introdução do instrumento
musical que compõe a bateria musical da capoeira, chamado de
pandeiro, nos revela o escritor Rêgo, W. (1969).
Toda essa representatividade
cultural influenciou na construção de saberes diferenciados, no
qual, se alinham na formação dessa expressão popular
afro-brasileira, como nos relata Areias A. (1984).
Mas,
afinal de contas, o que é capoeira? É luta? Dança? Briga? Defesa
pessoal? Esporte? Cultura? Arte? Folclore? Capoeira é isso tudo e
muito mais! Capoeira é música, poesia, festa, brincadeira, diversão
e, acima de tudo, uma forma de luta, manifestação e expressão do
povo, do oprimido e do homem em geral em busca da sobrevivência,
liberdade e dignidade.
Historicamente, a capoeira e
outras manifestações socioculturais que resistiram ao tempo e as
transformações, representam para a civilização brasileira e
mundial, símbolos que agregam uma complexidade extraordinária,
proporcionando possível contribuição na construção do processo
educacional, e por esta razão necessita de estudos científicos
constantes.
A EDUCAÇÃO E AS RELAÇÕES COM
A CAPOEIRA
O século XXI, é o seculo da
sociedade do conhecimento, e devido ao avanço das tecnologias,
ocorrem mudanças frequentes no conhecimento. Sendo assim o processo
educacional precisa ser repensado através de uma visão de
totalidade, e não parcialmente.
Relata
Hegel, G. (1992) através
de sua célebre frase: ao ver a árvore pode se perder de vista a
floresta. “O verdadeiro é o todo”.
É necessário um entendimento
mais profundo sobre a visão da totalidade como cita Nildo, V. (2002)
Do
ponto de vista metodológico, a totalidade é fundamental porque não
é possível compreender as partes sem uma visão do todo. (...)
Enfim, sem uma visão do todo se vê apenas partes isoladas e
ideologicamente “explicadas”. Não é preciso dizer que isto não
só é uma necessidade teórica como também prática. A resolução
de problemas sociais, ambientais, entre outros, requer sua
compreensão, e, portanto, a visão da totalidade.
A
visão parcelar da realidade, principalmente quando provoca o
isolamento de suas partes, produz não somente ideias falsas, mas
práticas equivocadas. Por isso, a categoria de totalidade assume
importância fundamental.
O pensamento de Hegel, permite um
olhar mais profundo no processo de ensino-aprendizagem, no qual,
percebe-se os símbolos e valores existentes em todos os espaços do
conhecimento.
Além do locais onde ocorrem o
ensino formal (ensino fundamental I e II, ensino médio e ensino
superior), o processo de ensino-aprendizagem da capoeira é tratado
por alguns dos novos espaços do conhecimento. Segundo Dowbor, L.
(2008) os novos espaços do conhecimento são:
- Espaço do setor empresarial moderno – educação para seu desenvolvimento.
- Espaço da televisão e das mídias gerais reorientadas – programas educacionais e vídeos autônomos.
- Espaços dos cursos técnicos especializados – inúmeras novas tecnologias.
- Espaço científico domiciliar – ergonomia do trabalho intelectual.
- Espaço do conhecimento comunitário – organização dos espaços comuns dos próprios locais.
- Espaço de pesquisa e desenvolvimento - progresso científico generalizado.
Alguns estudos já comprovam que
esses espaços são produtores de conhecimento e de cultura, as
manifestações da sociedade que acontecem em muitos ambientes,
demonstram a exposição do saber e das tradições expressivas.
Na atualidade a demonstração é
real, como percebemos através dos exemplos de Abib (2005).
Percebemos na programação televisiva, na produção
cinematográfica, na mídia impressa, na produção musical, entre
outras instâncias, um número cada vez maior de aparições de
grupos culturais tradicionais, através de reportagens especiais,
documentários, shows, apresentações, lançamentos de cds, etc.
E se essas exposições das
tradições culturais e ações das organizações educacionais, não
seguirem um contexto, no qual, os conhecimentos específicos da
capoeira, ou de outros conhecimentos específicos, não forem
respeitados, podem afetar, historicamente, a geração futura, seu
processo educacional, e de entendimento dos fatos. Modificando assim,
tradições culturais e dos saberes existentes, como percebemos nesta
citação de Larrosa, J. (1995).
(...)
un hacer que afeta a algo, un afectar, es justamente la definición
foucaultiana del poder. El poder es una acción sobre acciones
posibles. Una acción que modifica las acciones posibles
estableciendo com ellas una superficie.
Nesta citação percebe-se que
existe uma relação expressiva de poder, e este poder interfere no
cotidiano da sociedade, quando consegue estabelecer-se através de
suas ações, restabelecendo assim suas dominações.
Neste contexto, a influência do
poder das organizações educacionais, interfere indireta ou
diretamente na capoeira, que historicamente, sempre foi uma expressão
e representação da cultura popular.
Além das influência do processo
educativo, percebe-se outras conjunturas que também interferem na
cultura popular, hoje, cultura globalizada.
Analisar a cultura popular, sob o
prisma de sua inserção nas sociedades globalizadas, implica em
considerar as discussões sobre cultura de massa e o papel da mídia
e da indústria cultural nesse processo. Abib (2005).
As
implicações são expressivas pois interferem, pelas relações de
poder, seja elas quais forem, nos objetos tradicionais como a
capoeira, por exemplo.
Teoricamente,
ou no campo das ideias e dos poderes, os objetos da cultura, dito
tradições e de expressiva notoriedade, pode ser afetada por
circunstâncias evidentes, através de ações, e ações de poder,
aplicadas sem coerência, sem ética e sem um apropriamento do saber
específico.
Esse saber específico durante um
largo período de tempo, é que legitimará sua apropriação.
Por que será que hoje existe uma
discussão sobre o valor que tem os grandes mestres da cultura?
Entende-se como mestres da cultura e da cultura popular, os homens e
as mulheres que expressam através de suas vidas, largo conhecimento
nas diversas áreas culturais, filosóficas, artísticas, etc. Alguns
exemplos são os líderes religiosos, mestres de capoeira, artesãos,
artistas, escritores, etc.
É
simplesmente a comprovação de que possuem um potencial enorme de
conhecimentos e saberes, sendo reconhecidos pela sociedade e meio
acadêmico, pois existe “lastro de conhecimento” para isso. E
suas histórias de vida são contempladas com diversos títulos de
doutor
honoris
causa,
que são transmitidos pelas universidades e seus conselhos
acadêmicos.
Essas informações, demonstram,
comprovam e registram evidências da necessidade de inserção
destes “doutores da cultura”, na interferência direta nos meios
e espaços do conhecimento, pois são os legítimos detentores desses
saberes específicos, e não são em poucos anos que se chega a esse
patamar, são décadas de atuação reconhecida.
Transportando para as tradições
da capoeira, durante décadas, os antigos mestres de capoeira
aprimoram os conhecimentos de seus discípulos, por isso a frase “Só
o tempo é que lhe faz mestre”. O tempo é essencial para aquisição
e entendimento desses saberes, é necessário o amadurecimento da
personalidade para que se fundamente esses princípios complexos.
Sintetizo
utilizando uma frase, de nossa autoria, na disciplina: Procesos
de aprendizaje em la edad adulta,
do mestrado em educação da USAL – Arg.
“La
maturidad si revela em el caos, donde la sensibilidad y el
equilibrio, si manifestan”.
Ser adulto não quer dizer que se
é maduro, que psicologicamente esta agindo menos equivocado. É essa
madurez que nos retrata Garrido (1989)
Dicen
que un día le preguntaron a Sigmund Freud cuándo una persona es
psicológicamente madura y que respondió: "El hombre maduro ama
y trabaja en libertad".
La
frase de Freud resulta psicológicamente clarificadora, porque sitúa
ambos polos, dinámicamente
en la libertad. No basta tener un mundo afectivo para ser maduro. Lo
que cuenta es la calidad del amor, que depende del grado de libertad
interior con que se viven las relaciones interpersonales. No basta
ser eficaz. Nuestra sociedad produce mucha gente activa y ansiosa que
huye, mediante el trabajo, de sus conflictos latentes.
Esse tempo e as inter-relações
do modo de vida das pessoas é que traduziram uma personalidade mais
madura, e neste sentido é que para ser um líder ou assumir certos
cargos e funções na sociedade, precisa-se de certo conhecimento e
maturidade para por em prática essas ações.
Se faz necessário estabelecer
critérios que diferenciam as ações da criança das ações de um
adulto. Por isso o tempo é que tornará essa criança um ser adulto,
e esse ser adulto consciente, autônomo, crítico e criativo.
As representações dos símbolos
são diferentes, o olhar geral e específico das situações do
cotidiano são expressados de formas diferentes. O melhor
entendimento do micro e do macro, são proporcionais aos níveis de
evolução da personalidade de cada ser humano em seu meio social.
Cabo P. (2000) relata que:
Las
personas adultas están inmersas em un proceso de produción social y
cultural que configura una determinada situación histórica y un
contexto, com unas condiciones objetivas dentro de las cuales se
forma y se ordena la vida social. Estas condiciones tienen relación
com la forma de pensar, com el sistema de representación de
creencias y com las formas de consciência.
Os pensamentos e ações das
pessoas é político, é cheio de intenções, nos meios educacionais
ou não, expressa Paulo Freire, (1988).
As ações equivocadas parecem
que se proliferam nas diversas camadas sociais e nos diversos setores
da sociedade, como denuncia Accurso, A .(1995)
(…)
Surgem trabalhos, palestras, seminários, onde os diplomados adquirem
reconhecimento, dentro dos padrões dominantes, assumindo, desse
modo, cargos e funções em instituições públicas e federações,
dominando e dirigindo a capoeira.
A
escola de educação física e as federações vêm acrescentando
novas formas e interpretações na capoeira, adulterando-a, assim
como a sua mensagem, sua identidade.
Esse autor já percebe e
transmite através de seu livro que algo estava acontecendo de
equivocado na relação entre a capoeira e a educação, os “atores”
do processo estavam interferindo muito nos saberes da matriz do que
se conhece da arte luta.
Nesta outra citação, Acurso
(1995) revela as relações interpessoais desse instrumento de
educação
Outro
aspecto importante do emprego da capoeira como instrumento de
educação, se refere à sua prática e ao seu contexto. (…) Em seu
meio social não interessam os valores da sociedade, pois no jogo da
capoeira as relações das pessoas se sobrepõem às relações
sociais, (…).
A
capoeira, por representar uma cultura de resistência, com sua
história, com sua linguagem própria, é sem dúvida um instrumento
precioso para a conscientização de mudanças sociais.
As investigações e estudos
dessa tese, mesmo que indiretamente, propiciarão aos próximos
trabalhos, nesta perspectiva, a superação por outros pesquisadores,
e de certa maneira a construção de novas sínteses.
CAPOEIRA, CULTURA E EDUCAÇÃO
Ao decorrer de sua história, a
capoeira foi praticada em diversos locais e contextos diferenciados,
desde a senzala até as universidades. No início existia uma função
principal de resistência, para em seguida se tornar mais educativa,
com o conhecimento perpassando através das matrizes que formaram a
cultural brasileira.
Nos relata Silva, G. (2008)
Desde
esse momento mais remoto da história da capoeira no Brasil, podemos
observar a transmissão de elementos culturais da geração mais
velha para as gerações mais novas. Já existia ali, portanto, um
processo e uma ação educativa de teor altamente transformador.
A capoeira vem
colaborando de forma educativa seja em seu próprio círculo de
atuação, como também inserida nos diversos espaços do
conhecimento principalmente no Brasil, que há algumas décadas já é
observado este fenômeno, de fusão da capoeira com as unidades
educacionais.
Para Silva, Gladson
(2008) ao longo de muitos anos de trabalho acredita nesta premissa
“educar por meio dos fundamentos da capoeira”. Seja na escola, na
academia, no clube, na universidade (…) sempre acontece como
instrumento de educação.
Desde
1960, a capoeira tem adentrado as portas das escolas, fazendo parte
de uma instituição que, juntamente coma família, tem papel central
no processo educativo de crianças e jovens. Nos últimos anos, a
inserção da capoeira nas escolas tem sido um processo bastante
significativo nas principais regiões do Brasil. Da mesma forma, nos
diversos países em que a capoeira se faz presente, observa-se
processo semelhante.
Para Penha, V.
(2010) ao lançarmos a questão sobre as mudanças que a Capoeira
teria ao entrar no ambiente escolar estávamos pautados na crença de
que seu processo de produção de conhecimento fora da escola
acontecia de uma maneira diferente do processo de produção de
conhecimento dentro do ambiente escolar e, por isso, acreditávamos
que, ao chegar à escola, a Capoeira passaria por mudanças.
Mas percebe-se que
esta afirmação pode ser ou não coerente com as diversas unidades
educacionais e seus atores.
A capoeira, segundo o Ministério
da Cultura do Brasil, através do IPHAN – Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional, na certidão de registro da roda de
capoeira como patrimônio cultural brasileiro, em 20 de novembro de
2008, descreve a capoeira como uma manifestação cultural presente
hoje em todo território brasileiro e em mais de 150 países, com
variações regionais e locais criadas a partir de suas “modalidades”
mais conhecidas: as chamadas “capoeira angola” e “capoeira
regional”. O conhecimento produzido para a instrução do processo
permitiu identificar os principais aspectos que constituem a
capoeira, como prática cultural desenvolvida no Brasil: o saber
transmitidos pelos mestres formados na tradição da capoeira e como
tal reconhecidos por seus pares.
Neste breve relato percebe-se a
dimensão da capoeira, desde o seu surgimento e desenvolvimento nos
prováveis lugares: senzalas, quilombos, plantações da era
colonial, praças, ruas, mercados e portos do Brasil colônia.
Para em seguida, sistematizar-se
nos espaços fechados e limitados das chamadas academias ou centros
de capoeira pelos bairros centrais e periféricos da primeira capital
do Brasil e seu arredores, chamado de Recôncavo Baiano.
Em um segundo período, avança
pelas capitais que possuíam portos, e no terceiro período emigra
para dezenas de países pelo mundo.
A capoeira é complexa e símbolo
expressivo da cultura brasileira, por isso exerce fascínio e
admiração. Mas não foi sempre assim, em outubro de 1890, o decreto
nº 487, proibia a capoeira e determinava pena de 2 a 6 meses.
A admiração e um sentimento
nacionalista, leva o Estado brasileiro, a partir de 1930, a
impulsionar a trajetória da capoeira, permitindo-lhe maior
visibilidade.
E na educação, como está
ocorrendo a apropriação dos saberes e desse conhecimento específico
que é a capoeira? Como esta ocorrendo a relação desse conhecimento
com a sociedade?
As respostas surgirão com o
aprofundamento das investigações e dos estudos que serão
realizados, que possivelmente identificarão as nuances entre a
educação e a capoeira, e as interferências dos chamados espaços
do conhecimento.
A capoeira é disciplina do
currículo das universidades de educação física do Brasil, também
esta inserida nos estabelecimento de ensino privado e público, nas
mídias, e em outros diversos segmentos do processo educativo.
Para Falcão (1995) a inclusão
da capoeira nas instituições de ensino representa uma situação
inusitada. Pois no passado era passiva de penalidade no código penal
brasileiro.
Quais os princípios e tradições
culturais da capoeira precisam ser conservadas para que não ocorra a
descaracterização dessa arte luta?
Para Cruz, José (2003) ninguém
é dono da verdade absoluta. A capoeira sofre um processo de criação
constante e cabe a nós, mestres, extrairmos o que existe de melhor
dentro das diversas formas de ensino. Procurando enriquecer cada vez
mais a nossa arte, (…) eliminando todos os movimentos estranhos ás
nossas raízes, que descaracterizam nossa arte, acrescentando e
conservando os que estiverem de acordo com as nossas tradições
(...).
O próprio tempo, em que a pessoa
se desenvolve é extremamente importante, devido a seu amadurecimento
como conhecedor da arte luta complexa como é a capoeira.
Segundo a argentina Dominguéz,
María (2010) na interpretação de muitos mestres a ampliação do
mercado de trabalho trouxe prejuízos para a capoeira, com a busca de
um aprendizado imediato e no encurtamento do período como aluno, que
quer começar a dar aula o mais rápido possível, trazendo um
afastamento das tradições da arte.
O tempo é importantíssimo para
compreensão da capoeira, mesmo um artista plástico, desenhista
expressando suas criações necessita de conhecimento aprofundado e
um resgate as tradições como vemos em algumas construções
artísticas desde 1960, como relata Oliveira, J. (2009)
(…)
os mágicos traços de Carybé sobre a capoeira baiana. A partir de
então, as gravuras do artista plástico argentino radicado na Bahia,
saltaram das telas para ocupar as estampas no universo da capoeira,
seja na literatura, nas camisetas ou nas ilustrações dos espaços
onde se desenvolvem ainda hoje as atividades da capoeira.
A capoeira parece ter papel
fundamental na construção do saber no processo educacional, pela
sua expressividade.
Afirma Abib, (1995) Os códigos
de valores presentes nos nossos processos educativos, envolvendo a
cultura popular, se diferenciam substancialmente daqueles
privilegiados num processo formal de educação (…)
DIALÉTICA
E CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para avançarmos nas reflexões
do processo de ensino-aprendizagem, far-se-á necessário o
confrontamento entre as tradições e saberes existentes comprovados,
com prováveis mudanças exercidas ao longo da história, para uma
também provável superação gerando um novo saber ou confirmando os
tradicionais como mais viáveis no contexto atual.
Segundo Lakatos, E. (1993), o
método dialético fundamenta-se na proposta, em que as contradições
se transcendem dando origem a novas contradições que passam a
requerer solução.
É um método de interpretação
dinâmica e totalizante da realidade e considera que os fatos não
podem ser considerados fora de um contexto social, político,
econômico, etc.
O método dialético de Hegel
consiste primeiramente na escolha de um saber, uma verdade, uma tese
no qual é colocada em evidência, para em seguida ocorrer a
exposição de saberes opostos, surgindo assim a antítese, dessa
verificação surge uma nova síntese ou outra tese, que em um
movimento cíclico e não estático, pode ser exposta novamente a
outros saberes ocorrendo outras sínteses.
Essa movimentação tese →
antítese → síntese (nova tese) será o “caminho” para ser
percorrido na verificação dos conteúdos dos programas
educacionais, programas universitários e outras situações
coletadas nos novos espaços do conhecimento, que utilizem esse saber
complexo, que é a capoeira com suas vertentes e nuances.
Para
comprovação das tradições da capoeira, na aplicabilidade
intra-disciplinar no processo educativo dos espaços do conhecimento,
será necessário observar a contribuição de Gil,
A. (2006), na identificação de alguns princípios comuns da
dialética:
- Princípio da unidade e da luta dos contrários (unidade dos opostos) – os fenômenos apresentam aspectos contraditórios, que são organicamente unidos e constituem a indissolúvel unidade dos opostos. Os opostos não se apresentam simplesmente lado a lado, mas em estado constante de luta entre si. A luta dos opostos constitui a fonte do desenvolvimento da realidade.
- Princípio da transformação das mudanças quantitativas em qualitativas. Quantidade e qualidade são características imanentes (inerentes) a todos os objetos e fenômenos, e estão inter-relacionados. No processo de desenvolvimento, as mudanças quantitativas graduais geram mudanças qualitativas e essa transformação opera-se em saltos.
- Princípio da negação da negação (mudança dialética) - O desenvolvimento processa-se em espiral, isto é, suas fases repetem-se, mas em nível superior. A mudança nega o resultado e o resultado, por sua vez, é negado, mas essa segunda negação conduz a um desenvolvimento e não a um retorno ao que era antes.
Através desta perspectiva
dialética, é que ocorre o confronto das teses atuais com as teses
tradicionais, nos diversos setores simbólicos da capoeira enquanto
instrumento educativo, nas unidades educacionais.
Essas informações, propiciam
respostas variadas, sintetizadas com um novo saber, permitindo
averiguar se ocorre contradições expressivas ou algo não
relevante, no processo de ensino-aprendizagem, dos atores envolvidos
com a capoeira do século XXI.
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